Quatro Meses em Kathmandu: Espiritualidade, Vida Cotidiana e Contrastes  no Nepal

Escrevo este texto nos meus últimos dias no Nepal. Foram quatro meses em Kathmandu — um mergulho entre espiritualidade, cotidiano e aprendizados que sigo levando comigo.Viver esse tempo aqui foi mais do que uma imersão cultural — ao invés de apenas “visitar” a cidade, pude habitá-la, construir rotinas e deixar que ela me transformasse aos poucos.

Embora tenha vivido na capital, minhas explorações se estenderam por todo o Vale de Katmandu, que inclui cidades como Patan, Bhaktapur e Pharping — cada uma com sua própria alma, mas todas profundamente conectadas por uma atmosfera sagrada que parece envolver todo o vale.

Vista de Kathmandu a partir da homestay — espiritualidade no cotidiano do Nepal
A vista da minha homestay em Kathmandu — onde o cotidiano se tornava também prática espiritual.

Kathmandu: poeira, trânsito e acolhimento


A cidade pulsa o tempo todo. As buzinas, as motos que se multiplicam em cada esquina, a poeira suspensa no ar, os cortes de luz — tudo isso compõe a paisagem cotidiana.

Nas ruas, não há pressa de semáforos (só recentemente instalaram um próximo ao portão da Boudha Stupa. Contudo, ele só funciona quando tem guarda de trânsito). As pessoas simplesmente erguem a mão, fazem um gesto para que o veículo espere, e atravessam. No começo, eu só me sentia segura se tivesse alguém ao lado, quase colada em um pequeno grupo. Com o tempo, aprendi a atravessar como eles — mas ainda prefiro a faixa de pedestre, junto à multidão.

E, surpreendentemente, em meio a essa intensidade, há uma muito acolhimento e generosidade. A espiritualidade não está isolada nos templos: ela escorre pelas calçadas, pelas rezas murmuradas, pelas oferendas de flores deixadas nas esquinas. Os momos (bolinhos típicos) e o milk tea (chá com especiarias), encontrados em cada esquina, também viraram parte das minhas pausas, quase como rituais cotidianos de pertencimento.

Fim de tarde numa rua em Kathmandu
Poente na rua Boudhath Road

Boudhanath Stupa: um ritual diário de presença

A Boudhanath Stupa é impossível de ignorar. Gigantesca, circular, imponente — ela domina o bairro de Boudha e é um dos centros espirituais mais importantes do Nepal. Caminhar ao redor da estupa, acompanhando a devoção de moradores e monges, é uma experiência que revela como a espiritualidade está entrelaçada à vida cotidiana no Nepal. Os olhos de Buda que observam em todas as direções transmitem a sensação de estar sempre acompanhado, sempre guiado.

Na próxima semana, escrevo um texto só sobre meu ritual diário nesse monumento sagrado, porque ali, dia após dia, entendi que andar em círculos pode ser exatamente o que nos move para frente.

Marcela diante da Boudhanath Stupa em Kathmandu, centro espiritual do Nepal
Diante da imponente Boudhanath Stupa — um ritual diário de presença e silêncio em meio à vida vibrante de Kathmandu.

Buddha Park Boudhanath: um santuário vivo de rituais e cantos

Ao lado da grande estupa de Boudhanath, o Buddha Park é um espaço que respira espiritualidade diariamente. Ali, muitos nepaleses vão todas as manhãs fazer seus rituais: acendem lamparinas, oferecem flores, circundam os monumentos, recitam mantras. Era também um dos meus lugares preferidos para nutrir o espírito — especialmente durante os pujas conduzidos por monjas tibetanas.

Buddha Park Boudhanath
Estátua de Padmasambhava no Buddha Park, onde os devotos fazem oferendas e circumbulações

Shechen Monastério: tradição que sobreviveu ao exílio

Perto da estupa de Boudhanath, o Shechen Monastery mantém viva a tradição Nyingma do Budismo Tibetano. Fundado por Dilgo Khyentse Rinpoche no exílio, após a destruição do mosteiro original no Tibete, hoje abriga centenas de monges e transmite ensinamentos que vão da filosofia à arte sacra. O que mais me tocou ali foi observar a devoção das mulheres tibetanas — muitas idosas — que circundavam a estupa e as rodas de oração  com paciência e fé, em um gesto silencioso de entrega e perseverança.

Visão panorâmica do Schen Monastery no Nepal, cercado por montanhas e natureza.
Vista panorâmica do Schen Monastery — espiritualidade em meio às montanhas do Nepal.

Mosteiro Kopan: silêncio e contemplação no alto de Kathmandu

Antes mesmo de chegar ao Kopan, eu e Fran, uma chilena que conheci no curso de Yoga em Rishikesh e que, com o tempo, se tornou uma irmã de alma — nos enganamos de caminho e entramos em um espaço silencioso, envolto por árvores. Descobrimos depois que era a Kopan Nunnery, dedicada à formação de monjas, muitas delas refugiadas tibetanas.

Chegamos por volta das sete da manhã, quando a vida monástica iniciava.. Tivemos a bênção de ouvir um puja conduzido pelas monjas — vozes suaves que enchiam o ar de uma devoção palpável. Ficamos ali em silêncio, apenas sentindo a benção de estar ali.. Foi um daqueles momentos em que o acaso parece ser pura guiança.

🎧 Compartilho abaixo um pouco desse instante tão especial.

 No alto da colina, o Mosteiro Kopan se ergue como um refúgio espiritual em meio ao movimento de Kathmandu. Fundado em 1969, é lar de centenas de monges dedicados ao estudo e à prática budista. Subir até lá já é um exercício de desaceleração.

A energia do lugar envolve como um manto silencioso. Numa segunda visita, meditei no templo central, caminhei pelos jardins, visitei a livraria e depois me detive diante da vista ampla de Kathmandu, lá do alto. Fiquei um bom tempo contemplando a paisagem, acompanhada da minha roommate mexicana — uma graça de pessoa, mais um presente que essa caminhada me ofereceu.

Mulher meditando em frente a uma estátua envidraçada no Kopan Monastery, com vista panorâmica do vale de Kathmandu, montanhas e céu azul
Silêncio e contemplação no Kopan Monastery — quando a paisagem também medita com você.

Swayambhunath: o templo dos macacos

No alto de uma outra colina, com escadarias íngremes e centenas de degraus, o Swayambhunath, também chamado de Templo dos Macacos, oferece uma das vistas mais impressionantes de Katmandu. Visitei esse lugar com a chilena Fran e fFoi curativo caminhar até lá e compartilhar histórias de vida.

A estupa dourada, os olhos de Buda pintados em todas as direções, e o som das orações criam um ambiente que transcende o tempo. Mais do que a paisagem, o que me tocou foi a forma como budismo e hinduísmo convivem em harmonia ali, em meio a macacos travessos e peregrinos sinceros.

Fragmentos de Swayambhunath — o “Templo dos Macacos” que guarda vistas, cores e rituais sobre o vale de Kathmandu.

Templo Pashupatinath: cremações, silêncio e yoga

Diferente de todos os lugares que já visitei aqui no Nepal, Pashupatinath me confrontou. O templo, dedicado a Shiva, realiza cremações a céu aberto todos os dias nas margens do rio Bagmati. Assistir a esse ritual foi intenso e desconcertante, mas também profundamente humano. A morte ali não é escondida — é parte do fluxo da vida. A presença constante do sagrado, mesmo diante do fim, me fez repensar como lidamos com a finitude no Ocidente.

Em outro momento, retornei ao local convidada por um nepali que conheci, para participar de uma aula de yoga com um professor local. Praticar yoga em um espaço sagrado como aquele foi algo que tocou profundamente. O corpo se movimentava entre a fumaça dos rituais, o som das orações, e o pulsar silencioso da energia do lugar. Foi uma experiência que uniu o físico e o espiritual de uma forma muito viva — como se cada asana também fosse uma oferenda.

Mulher praticando Yoga no Templo Pashupatinath em Kathmandu, local sagrado dedicado a Shiva
Praticando Yoga no Templo Pashupatinath — movimento e devoção em um dos lugares mais sagrados do Nepal.

Thamel: caos organizado e descobertas com sabor japonês

Thamel é um bairro caótico e encantador, onde tudo parece acontecer ao mesmo tempo: rikshas conduzidas por humanos, lojas de trekking, cafés escondidos, feiras improvisadas, gente de todo lugar. Explorei com calma o comércio local, procurando um tênis para trekking, afinal o que mais faço nessa peregrinação é caminhar. (rsrsrsr) Foi também em Thamel que fui conhecer um restaurante japonês, por indicação da Mônica — minha outra irmã de caminhada, que a jornada também me deu. Um lugar para comer sem pressa, se deliciar com uma comida afetuosa e saborosa

Condução de riquixá em Thamel. Fonte da imagem: Thamel Nepal

Três cidades, três praças reais: o coração histórico do vale de Kathmandu

O que muita gente não sabe é que Katmandu, Patan (ou Lalitpur) e Bhaktapur já foram cidades-estado independentes, cada uma governada por sua própria linhagem real. Por isso, cada uma tem a sua própria Durbar Square — o centro nervoso da vida política, religiosa e cultural de antigamente. Essas praças são verdadeiros museus a céu aberto, cheios de palácios, templos e detalhes arquitetônicos impressionantes. Caminhar por elas é como voltar no tempo. Eu fiquei realmente impressionada com quanta história, arte e cultura estão concentradas nesses lugares, todos reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. É o tipo de experiência que faz a gente repensar a relação entre passado e presente.

Uma visita ao Kumari Ghar e o breve encontro com a deusa viva do Nepal

Bem no coração da Durbar Square de Katmandu está o Kumari Ghar, um edifício histórico com uma bela fachada de madeira esculpida, onde vive a Kumari — a deusa viva. A tradição da Kumari é única no Nepal: uma menina escolhida ainda criança é venerada como a encarnação da deusa Taleju até a chegada da puberdade, quando retorna à vida comum. A residência é fechada ao público, mas, em determinados momentos do dia, a Kumari aparece brevemente em uma janela do pátio interno para abençoar os visitantes. Depois de explorar o local, fiquei ali com outras pessoas esperando esse momento. Quando ela apareceu, o silêncio foi quase automático. Algumas pessoas se emocionaram visivelmente, tocadas pela experiência. Eu achei tudo muito interessante do ponto de vista cultural — é realmente algo único no mundo — mas, para ser sincera, não senti nenhuma grande conexão pessoal ao vê-la. Ainda assim, foi um momento marcante, que diz muito sobre as crenças e tradições profundas do povo nepalês.

Colagem com imagens do Kumari Ghar em Katmandu: a jovem Kumari em trajes cerimoniais, janelas de madeira esculpida, turistas no pátio interno e a fachada com leões guardiões. O local é residência da deusa viva e símbolo da tradição espiritual nepalesa.
Kumari Ghar: entre janelas esculpidas e o silêncio da deusa viva.

Bhaktapur: a cidade onde o tempo respira

Dentre as três antigas cidades reais do vale, Bhaktapur foi a que mais me deu a sensação de caminhar em outra época. Suas praças, templos e ruelas guardam uma atmosfera medieval que sobreviveu a terremotos e modernizações. A Durbar Square, com o Palácio das 55 Janelas, é impressionante, mas o que mais me encantou foram os detalhes cotidianos: os artesãos moldando cerâmica no sol, as mulheres oferecendo flores, os cheiros de especiarias que tomam as ruas.

Ali, cada esquina parecia guardar um pedaço vivo da história. A cerâmica sendo moldada na praça, os pátios cheios de esculturas em madeira, as cores das especiarias espalhadas nas feiras — tudo me dava a sensação de que o tempo ali corre em outro ritmo. Bhaktapur não é apenas uma cidade-museu: é um lugar onde o passado continua respirando no presente.

Colagem com cenas de Bhaktapur, no Nepal: templos históricos, mulheres em trajes tradicionais, mercado de rua e arquitetura típica newar.
Bhaktapur: tradição viva entre templos, mercados e sorrisos.

Patan além da praça: onde a fé toca o cotidiano

Visitei a Praça Durbar de Patan como tantos turistas, encantada com a arquitetura newar, os pátios do antigo Palácio Real e deslumbrada com o museu que revela a história das religiões no Nepal. Ali, fica evidente como o hinduísmo e o budismo não apenas coexistem, mas se entrelaçam de forma única, criando uma identidade espiritual profundamente enraizada na cultura nepalesa. É o tipo de lugar que faz a gente sair não só com fotos bonitas, mas também com muitas perguntas e reflexões.

Mas foi além da praça que tive uma das experiências mais significativas da cidade: uma monja nepalesa gentil e serena me guiou por lugares pouco conhecidos dos visitantes.

Fomos até o templo hindu Bangalamukhi, onde mães levam seus filhos para serem abençoados — em vez de irem ao médico, colocam as crianças na porta de um dos santuários. Passei um tempo ali observando, sentindo. Existe de fato uma energia de cura muito forte naquele espaço. Aproveitei para pedir também pela minha própria saúde.

Depois, seguimos até o Yampi Mahabihar, um antigo mosteiro onde o mestre Padmasambhava viveu por um tempo. Foi emocionante pisar num lugar com tanta carga simbólica. Ainda mais para quem, como eu, está mergulhando na espiritualidade do Himalaia com olhos abertos e coração curioso. Visitamos ainda o Maha Temple, silencioso, com seus detalhes escondidos à espera de quem se deixa conduzir.

Colagem com imagens de Patan, Nepal: templos esculpidos em madeira e pedra com guardiões mitológicos; uma escadaria com estátuas de elefantes; um altar interno ricamente decorado com esculturas e mandalas; e um pequeno templo com porta dourada cercado por devotos. As fotos mostram a fusão entre arte, história e espiritualidade que define a cidade.
Patan: entre esculturas, templos vivos e a fé que se revela nos detalhes.

Pharping: meditação entre montanhas e deuses

A cerca de 23 km ao sul de Katmandu, Pharping parece conter toda a força espiritual do Nepal em uma única paisagem. Lá está a enorme estátua de Padmasambhava, conhecido como Guru Rinpoche — figura central no Budismo Tibetano, considerado o responsável por levar os ensinamentos budistas ao Tibete no século VIII. Meditar aos pés daquela estátua foi uma das experiências mais potentes da minha jornada. Um silêncio vivo, como se o tempo tivesse parado para ouvir minha respiração.

Visitei também a Asura Cave, onde Padmasambhava teria alcançado a realização espiritual. A caverna é simples, mas carregada de energia. Permaneci ali em silêncio, em uma meditação curta e profunda.

Depois, juntamente com o Fabio e nossos amigos nepaleses, subimos a colina até o templo de Kali, onde participei de um puja (ritual) e pendurei bandeirinhas com os nomes de amigos e familiares. Foi um gesto simples, mas carregado de intenção. Fiquei em silêncio por alguns minutos, olhando as bandeiras balançarem ao vento, levando desejos ao céu como quem envia orações em forma de tecido colorido.


Colagem com cenas de Pharping, no Nepal: uma grande estátua de Padmasambhava; uma mulher fazendo oferendas no chão; três pessoas sorrindo enquanto preparam bandeirinhas de oração; um muro com esculturas religiosas; e o interior da caverna Asura, local sagrado para a prática de meditação.
Pharping pulsa com uma espiritualidade viva: um lugar de oferendas, encontros e contemplação

O que Katmandu deixou em mim

Kathmandu me ensinou que o sagrado pode estar tanto numa gruta silenciosa quanto num cruzamento barulhento. Em breve compartilho outras reflexões desse tempo por aqui — antes de seguir viagem rumo a novas paisagens, no Vietnã.

Colagem de fotos no Nepal: duas mulheres sorrindo em meio a bandeiras de oração coloridas em Pharping; interior de templo com monge e devotos em meditação; estátuas hindus em pedra; fachada ornamentada de um mosteiro tibetano em Katmandu; viajante sorridente diante da Boudhanath Stupa.
Momentos inesquecíveis dos meus quatro meses em Katmandu e arredores: rituais, templos, devoção, encontros e aprendizados que marcaram minha jornada.
Foto de Marcela Dâmaris

Marcela Dâmaris

Designer de aprendizagem, praticante de Yoga e criadora da Trip.MySelf. Conduzo vivências e celebrações que integram corpo, respiração e sentido — para que cada caminho seja também um retorno para dentro.

5 comentários em “Quatro Meses em Kathmandu: Espiritualidade, Vida Cotidiana e Contrastes  no Nepal”

    1. Marcela Damaris

      Gratidão imensa, companheiro de jornada 💛. Cada peregrinação deixa marcas únicas em nós, e é uma alegria sentir que seguimos conectados pelos aprendizados que a vida nos oferece

  1. Pingback: Minha jornada espiritual no Nepal: devoção, simplicidade e acolhimento

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima