Mekong Delta — Entre ilhas, tradições e pequenos encantos do Vietnã

Mekong Delta — entre ilhas, tradições e pequenos encantos do Vietnã

Uma imersão no coração aquoso do sul: canais, vilas, sabores e paisagens que contam séculos.

Fiz o famoso passeio de um dia pelo Delta do Mekong, partindo de Ho Chi Minh City
Depois de cerca de duas horas de estrada — entre plantações de arroz, pequenas vilas e paisagens verdes sem fim — chegamos à região de My Tho, porta de entrada para a imensa Delta do Mekong.

Portal de My Tho, entrada para o imenso Delta do Mekong

Mitologia no rio: as quatro criaturas que guardam o Mekong

O Delta do Mekong é um mosaico de água, terra fértil e vidas que se entrelaçam ao ritmo do rio. Ali, as ilhas recebem nomes que remetem ao imaginário mitológico do Oriente: Dragão, Unicórnio, Tartaruga e Fênix. Esses nomes não se devem à forma geográfica de cada ilha — e sim ao simbolismo profundo dos Quatro Animais Sagrados, figuras que atravessam a mitologia vietnamita, o pensamento chinês e os princípios do Feng Shui.

Dragão — sorte, força, vitalidade.
Fênix — renascimento, elegância, prosperidade.
Tartaruga — longevidade, sabedoria, estabilidade.
Unicórnio (às vezes associado ao Tigre) — coragem, proteção, discernimento.

Na tradição oriental, esses animais representam as quatro direções cardeais e os elementos da natureza, compondo um mapa energético que busca equilíbrio e boa fortuna. No delta, seus nomes aparecem como desejo de prosperidade e harmonia — um detalhe cultural que passa despercebido para muitos viajantes, mas que dá outro sentido às ilhas e ao próprio passeio.

As 4 ilhas do Delta Mekong: fragmentos de terra entre rios e mitos.

Mekong: lugar onde o coco vira doce, calor e tradição

Seguimos de barco pelos canais até a Ilha Con Phung (Ilha da Fênix), onde o ar tinha cheiro de açúcar aquecido e madeira úmida. Ali, visitei uma pequena fábrica artesanal que produz doces de coco — e o processo todo acontece à vista, sem máquinas, sem pressa.

Vi desde a extração da água fresca do coco até a mistura com açúcar, o cozimento em tachos de ferro e a modelagem final sobre tábuas de madeira. Tudo feito à mão, em um ritmo que parece ancestral.

O calor da lenha e o vapor adocicado no ar me envolveram antes mesmo da primeira mordida. Provei um doce recém-feito, ainda morno — e ali entendi que não se trata só de sabor, mas de um saber transmitido por gerações. Cada pedaço carrega o tempo do rio, das palmeiras, das mãos.

🎥 Quer ver o sabor ganhando forma?
Assista ao vídeo abaixo que mostra o preparo artesanal do doce de coco — da lenha ao tacho, da casca ao cuidado.

Entre coqueiros, canoas e panquecas de fubá

Continuamos a navegar pelas ilhas. Paramos na Ilha Unicórnio (Com Lan), onde fizemos a maior parte das atividades do dia. A primeira atividade foi navegar a bordo de uma sampana: numa canoa tradicional entre coqueiros-d’água — um dos momentos mais belos da viagem: o silêncio só quebrado pelo remexer suave da água.

Depois, embarcamos num jipe com bancos improvisados na caçamba, até uma nova área da ilha. Lá, três pessoas do grupo decidiram “bancar o chef” e prepararam banh xeo, a tradicional panqueca vietnamita feita em forno a lenha. A massa, crocante, me lembrou fubá — talvez por sabor, talvez por memória.

O almoço veio logo depois, servido em pratos simples e fartos: peixe frito, rolinho primavera, frango, arroz, sopa leve e uma verdura verde refogada com alho. O peixe estava um pouco seco, e como percebi em outras refeições no Vietnã, os temperos são mais sutis do que estou acostumada — o sal vem pouco, mas os molhos fazem o papel de realçar o sabor. A pimenta, quase sempre servida à parte, parece estar ali como um convite (ou desafio) ao paladar mais ousado. A culinária do delta, no entanto, fala com clareza: ela nasce da fartura da terra e da água. Arroz, peixe, coco, frutas tropicais — ingredientes que crescem no ritmo do rio e carregam a memória de uma região fértil e antiga.

Entre remos, forno à lenha e sabores locais — o delta se revela nos detalhes do dia a dia

Chuva, degustações e o valor do artesanato vietinamita

Depois do almoço, o céu desabou. Uma chuva intensa, com cheiro de terra molhada, folhas recém-caídas e o som grave das gotas batendo no telhado do barco. Seguimos mesmo assim até outra parte da ilha, onde uma pequena feira coberta parecia já nos esperar.

Ali  aconteceu uma das partes mais gostosas do passeio — literalmente. Provei todos os tipos de chocolate (e não estou exagerando), além de um doce de arroz inflado que me lembrou pipoca doce da infância, chips crocantes de banana e um tipo de pé-de-moleque mais suave, quase discreto. Os sabores eram simples, mas carregavam chão, história, geografia. Eram sabores de lugar.

O artesanato local, exposto entre as barracas, trazia uma variedade de lembranças e objetos decorativos criados a partir da madeira, da casca e até das folhas do coco — matéria-prima abundante no delta e reinventada com engenho. Havia colheres entalhadas, porta-copos, pequenos talismãs, utensílios de cozinha e enfeites de mesa, todos simples, mas cheios de identidade. Era bonito ver como algo tão comum ali ganhava forma nova nas mãos dos artesãos: pedaços de coco virando memória, símbolo, presente. Uma forma silenciosa e criativa de manter viva a relação entre natureza, trabalho e tradição.

Artesanato em coco e madeira: formas que guardam tradição.

Apicultura no Delta Mekong

Numa outra parte da Ilha do Unicõrcio, tivemos a chance de conhecer de perto um pequeno centro de apicultura tradicional.

Entre árvores frutíferas e caminhos de terra batida, o guia nos apresentou um favo de mel ainda ativo, coberto de abelhas. Ali aprendi que o mel do delta não é apenas um produto: é parte da história, da alimentação e até da medicina natural da região.

Degustamos uma sequência de bebidas feitas a partir de ingredientes das colmeias: chá com pólen de mel, leite com mel fermentado (de sabor levemente azedo) e frutas secas torcidas com mel — simples, nutritivas e com um sabor que fala de terra, flor e trabalho manual.

Essas receitas, passadas de geração em geração, não só adoçam o paladar como são valorizadas por seus efeitos para a saúde. Mais do que uma degustação, foi um testemunho de como a natureza ainda dita o ritmo da vida local — e de como o saber das abelhas encontra espaço entre os canais e os coqueiros-d’água.

Favo vivo: o mel começa aqui.

Don Ca Tài Tử: patrimônio musical do Delta Mekong

Em uma das ilhas seguintes — cujo nome me escapou, mas a memória ficou — assistimos a uma apresentação de Don Ca Tài Tử, gênero musical típico do sul do Vietnã.

Longe dos grandes palcos, essa arte tradicional reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade ganha vida em palcos improvisados, à sombra das árvores, com o som do rio ao fundo.

Ali, músicos locais — muitos deles amadores — criaram harmonia entre vozes suaves e instrumentos de corda típicos da região. As melodias, lentas e delicadas, retratavam paisagens, sentimentos e o cotidiano da vida ribeirinha.

Enquanto a música fluía, nos serviram frutas tropicais da estação: lichia, pitaia, abacaxi, melancia, acompanhadas de um chá leve. A combinação de sabores, sons e atmosfera simples tornava tudo mais intenso — como se a cultura ali não fosse apresentada, mas vivida com naturalidade.

🎧 Quer sentir o ritmo do delta?
Dê o play e assista ao vídeo que gravei durante a apresentação — a cultura ribeirinha do sul do Vietnã cantada por quem vive à beira dos canais.

Vinh Trang: Entre Budas Gigantes e Silêncio Interior

A última parada do passeio foi na Pagoda Vinh Trang, um dos templos mais importantes do sul do Vietnã. Localizada em My Tho, no coração do Delta do Mekong, ela não é apenas um ponto turístico — é um centro ativo de fé, arte e contemplação.

Fundada no século XIX, a pagoda é um símbolo da diversidade cultural da região. Sua arquitetura mistura com fluidez elementos vietnamitas, chineses e até franceses: arcos ornamentados, colunas pintadas à mão, mosaicos coloridos e jardins impecavelmente cuidados compõem o cenário. Desde 1984, o templo é reconhecido como patrimônio histórico e cultural nacional.

O que mais impressiona à primeira vista são as três estátuas gigantes de Buda:

  • Amitabha (Di Đà) em pé, com 24 metros de altura, olhando o mundo com serenidade;

  • Maitreya (Buda Feliz), sentado com um sorriso largo, com 20 metros;

  • E o Buda reclinado, branco e pacífico, representando o momento da passagem para o Nirvana.

Mas, para mim, o mais tocante foi um espaço interno mais discreto, onde quatro Budas estavam dispostos lado a lado, em diferentes expressões de calma. Senti uma vontade genuína de sentar e meditar ali — não pelo cenário em si, mas pela energia suave e silenciosa que atravessava o lugar.

O tempo era curto, mas ainda assim percorri o templo com respeito e fiz minha reverência. Foi um daqueles momentos em que o exterior encontrou espaço dentro. Estou tentando encontrar uma palavra para nomear esses momentos, mas ainda não achei. 

Pagoda Vinh Trang: arte, espiritualidade e jardins serenos no coração do Mekong.

Entre retornos, desvios e aquilo que permanece

O retorno para o hostel  não foi sem tropeços — e talvez por isso tenha sido tão simbólico.  A bateria do celular quase no fim, a cidade grande à frente, e aquela típica dúvida de quem viaja: o que faço agora?

Me perdi por alguns minutos. Perguntei a um morador, virei na rua errada, reconheci uma esquina que já tinha passado. E, curiosamente, tudo isso me pareceu coerente com o dia: no delta, nada é exatamente reto. Os caminhos se bifurcam, voltam, alagam, escorrem. E às vezes, para se encontrar, é preciso se perder um pouco.

Cheguei ao hostel, tomei banho, cama. Mas no corpo e na memória, ficou um tipo de silêncio bom — com a impressão de que certas experiências continuam mesmo depois do fim. O delta, tão cheio de movimento, foi também um lugar de pausa.

E é isso que Caminhos pelo Mundo me ensina sempre: há roteiros que nos mostram o lugar, e há jornadas que mostram algo da gente mesma. O Mekong fez um pouco dos dois.

Continue pelos Caminhos do Vietnã

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📍 Vietnã, um convite ao desfrute abundante

📍 Ho Chi Minh — primeiros passos pelo Sul do Vietnã

E no próximo capítulo, trocamos o calor úmido do sul pelo clima fresco das montanhas: Da Lat, com seus pinheiros, neblinas e flores, será o próximo destino por onde meus passos e sentidos vão passar.

Te vejo lá?

Foto de Marcela Dâmaris

Marcela Dâmaris

Designer de aprendizagem, praticante de Yoga e criadora da Trip.MySelf. Conduzo vivências e celebrações que integram corpo, respiração e sentido — para que cada caminho seja também um retorno para dentro.

6 comentários em “Mekong Delta — Entre ilhas, tradições e pequenos encantos do Vietnã”

  1. Zoraia Andreia do Carmo Silva

    Marcela,que espetáculo! Obrigada por compartilhar tanta coisa linda e especial! Continue,isso tudo não tem preço,tem valor! Abraço 🤗

    1. Marcela Damaris

      Zoraia, fico muito feliz em poder partilhar esses pedaços tão especiais da jornada. É bonito saber que chega até você com valor. Um forte abraço.

  2. Margarida Moreira Sagiorato

    Marcela, fico muito feliz por estar vivenciando essas experiências incríveis, e continua com essa sintonia e nos enviando suas experiências! ❤️🙏🙌🙌

    1. Marcela Damaris

      Margarida, obrigada pelo carinho 💛Seguirei partilhando sim — é especial ter você por aqui acompanhando a jornada.🙏🙌

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