Da Lat — a cidade da eterna primavera e seus caminhos profundos
Arquitetura colonial, espiritualidade e natureza na cidade da eterna primavera
Localizada no planalto central do Vietnã, a mais de 1.500 metros de altitude, Da Lat surgiu no final do século XIX como uma estação de clima fresco idealizada pelos franceses. Entre chalés europeus, fileiras de pinheiros e igrejas de traço gótico discreto, a cidade cresceu como um refúgio de montanha — com temperaturas amenas que lembram o início do outono.
Chegar caminhando por suas ladeiras já foi um convite para mudar o ritmo: o ar fresco e o silêncio das colinas fazem com que a atenção se desloque naturalmente para dentro. Da Lat mistura arquitetura histórica, vida rural e espiritualidade, numa atmosfera que convida à pausa. É nesse cenário que começa minha travessia pelo Vietnã Central.
Igrejas e Mosteiros — entre o Colonial e o Zen
A presença francesa em Da Lat permanece evidente nos templos católicos. A Igreja de São José, localizada em uma ladeira próxima ao meu hostel, foi meu primeiro contato com essa herança — simples, discreta, mas marcando a transição entre os dois mundos que convivem na cidade.
Alguns quilômetros adiante, o Domaine de Marie, de 1940, mistura arquitetura colonial com linhas vietnamitas. Seus jardins bem cuidados e sua fachada rosada fazem dele um dos cartões-postais da cidade. Entre freiras, silêncio e flores, o espaço convida ao recolhimento — e ali fiz uma oração pela minha família e amigos, envolta por uma atmosfera de quietude que parecia ampliar os pensamentos. As freiras, curiosas, perguntaram se eu era católica. Respondi que não e sorri internamente: para mim, rótulos parecem menos importantes que a vivência do lugar.
Da Lat também abriga alguns dos templos budistas mais expressivos do Vietnã. Na Pagoda Linh Sơn, pinheiros, um lago sereno e dragões protetores do Dharma compõem um espaço de simplicidade e contemplação. Já o Mosteiro Zen Trúc Lâm, erguido no alto da montanha com vista para o lago Tuyen Lam, segue a linhagem zen vietnamita e oferece uma atmosfera mais contemplativa, com jardins amplos e ritmos lentos.
Entre os templos que visitam as colinas ao redor, o complexo do Happy Buddha se destacou como um dos espaços mais significativos. No alto, a imensa estátua de Lady Buddha (Quan Âm) pode ser visitada por dentro, em oito andares decorados com murais e pequenos altares. No alto da estátua, enquanto o grupo conversava, preferi voltar um andar e me sentar em silêncio: Da Lat tem esse efeito de puxar a atenção para dentro. Nos jardins, um corredor formado por dezenas de estátuas compõe o chamado “Jardim Sagrado de Quan Âm”, criando um ambiente contemplativo que convida à pausa e ao silêncio — uma experiência que revela o tom espiritual da cidade. Caminhar entre elas me trouxe uma calma difícil de explicar
Por fim, o Templo Vạn Hạnh, com sua estátua dourada de Sakyamuni, reforça a presença vibrante do budismo no cotidiano local. É um local bastante frequentado, , mas encontrei um pequeno canto no jardim — cercado por estátuas de renunciantes — onde pude permanecer por alguns minutos em silêncio. Mesmo em meio ao movimento, o templo oferecia pequenos refúgios de calma
Da Lat respira espiritualidade por todos os lados: entre igrejas francesas, jardins zen e templos budistas, a cidade parece sempre propor um diálogo entre silêncio, tradição e introspecção.
Arquitetura de Da Lat: colonial, moderna e montanhosa
Projetada para ser uma “cidade-resort”, Da Lat reúne estilos que refletem diferentes fases da história urbana do Vietnã — do colonial ao moderno — e acaba funcionando como uma vitrine arquitetônica ao ar livre. Muitas casas lembram chalés alpinos, e a presença dos pinheiros, raros no país, reforça ainda mais essa atmosfera europeia no coração das montanhas.
Ao atravessar o centro e suas ladeiras, dois símbolos se destacam. O primeiro é o Mercado Central, vitrine da produção agrícola local — frutas, vegetais, flores — que sustenta a economia da região. Depois de tantos quilômetros caminhados, o Mercado Central me pareceu mais cotidiano que turístico — talvez porque eu mesma já carregava o cansaço das ladeiras.
O segundo é o Lago Xuan Huong, criado artificialmente pelos franceses nos anos 1920. Suas margens são ponto de encontro e pausa, especialmente no fim da tarde, quando a luz se espalha de forma suave sobre a água. Nos cafés ao redor do lago, descobri que o ritmo de um viajante também depende de algo simples: encontrar uma tomada livre. Pequenos detalhes que fazem parte do cotidiano real de quem vive a cidade a pé.
Mas nenhum lugar traduz o lado onírico da cidade como a Crazy House, obra expressionista iniciada em 1990 pela arquiteta Dang Viet Nga. Sem ângulos retos e inspirada em formas naturais — cavernas, teias, troncos — ela representa um Vietnã que buscava, no pós-guerra, novas linguagens artísticas. É um espaço entre o lúdico e o labiríntico, entre a fantasia e a crítica arquitetônica.
Da Lat, no fim, é isso: um cruzamento entre cidade planejada, vila de montanha e cenário surrealista.
Natureza e experiências rurais — flores, cachoeiras e a abundância das montanhas
Conhecida como “capital das flores do Vietnã”, Da Lat abastece grande parte do país com crisântemos, rosas, hortênsias e lírios. No Parque das Flores, é possível visualizar a diversidade de espécies cultivadas na região — uma mostra da força agrícola que sustenta a cidade desde o início do século XX. Encontrei um balanço— e deixei que a criança interior brincasse um pouco
A área rural ao redor oferece experiências que revelam a economia local: fazendas de café (uma das culturas mais importantes do Vietnã), plantações de flores e até criações de grilos, que fazem parte da culinária regional. A fábrica de seda foi uma das visitas mais marcantes: ali, o ciclo completo — do casulo ao tear — mostra um trabalho que combina técnica, paciência e herança cultural. Fiquei refletindo de como certos ofícios carregam uma beleza que nem sempre aparece nos roteiros.
A Pongour Waterfall, considerada uma das mais belas quedas d’água do país, revela o caráter selvagem da região. Eu e meus colegas do tour encontramos uns locais que nos ofereceram bebidas e frutas: gestos simples que dizem muito sobre esse país. Na volta, o nível da água havia subido e, num pequeno descuido, escorreguei — nada grave, mas suficiente para lembrar que a natureza ali tem seu próprio pulso.
Já a Datanla Waterfall, mais estruturada para o turismo, oferece trilhas e vistas acessíveis. Enquanto muitos desciam de carrinho, escolhi caminhar. A trilha silenciosa me levou a um banco afastado, onde esperei o fluxo de turistas diminuir. De repente, a cachoeira ficou vazia — só água, pedra e o som constante que acalma. Pequenos instantes assim dão à viagem outro contorno.
A natureza de Da Lat, combinada à força do trabalho rural e à delicadeza das flores, cria um território onde paisagem e cultura se entrelaçam. Entre montanhas, água corrente e campos que se estendem por quilômetros, a cidade revela uma face generosa e viva — um lembrete constante de que, nas alturas do planalto central, a abundância não é apenas agrícola, mas também humana.
Sabores e Cotidianos — O Vietnã que se vive caminhando
Da Lat tem uma culinária influenciada pelo clima ameno e pela produção local.
Nas cafeterias, o perfume do café torrado divide espaço com pães frescos — herança francesa ainda presente no banh mi, que finalmente encontrei delicioso por ali.
Nos restaurantes simples, arroz, legumes e frango se repetem em receitas caseiras, acessíveis e saborosas.
O cotidiano se revela a pé: ladeiras, padarias, cafés pequenos onde ir e vir depende da chance de carregar o celular. À beira do Lago Tuyen Lam, provei uma pizza vietnamita e fiquei ali um bom tempo, observando o silêncio quase completo da paisagem. E, numa noite, pedi um prato e chegou outro — um pequeno mal-entendido culinário que arrancou risos e lembrou que estar em viagem também é aprender a conviver com o imprevisto.
Da Lat combina simplicidade e encantamento, Seu encanto não está no espetáculo, e sim nas camadas discretas que se revelam a quem caminha devagar.
Conclusão — Da Lat, um lugar onde a cidade e o silêncio conversam
Da Lat é feita de pequenas revelações: na rua íngreme, no jardim silencioso, na água que cai em camadas. É uma cidade que não se impõe — se oferece. E, ao percorrê-la, percebi que algumas paisagens nos devolvem, com delicadeza, aquilo que ainda estamos aprendendo a ver.
A sensação que ficou é que Da Lat permite atravessar um limite entre o cotidiano e o sagrado — um convite constante para respirar, observar e deixar que algo amadureça sem pressa, no tempo do silêncio.
Continue a viagem pelo Vietnã
Se este texto te levou às montanhas silenciosas de Da Lat, talvez você queira revisitar também os outros passos que me trouxeram até aqui — cada um abrindo uma camada diferente do Vietnã e de mim mesma.
📍Mekong Delta — entre ilhas, tradições e pequenos encantos
Um dia inteiro navegando entre sabores, rituais, música e espiritualidade às margens do maior rio do Sudeste Asiático.
📍 Ho Chi Minh — primeiros passos pelo sul do Vietnã
Caminhadas, contrastes urbanos e histórias que surgem entre cafés, mercados e templos.
📍Vietnã — um convite ao desfrute abundante
Um relato que não fala de lugares, mas de percepções: da capacidade de desacelerar, de sentir sutilezas e de acolher o que a viagem desperta. Um texto sobre permitir que a vida floresça por dentro tanto quanto o país floresce por fora.
✨ No próximo capítulo, sigo em direção ao litoral para conhecer Nha Trang.
Uma cidade intensa, marcada pela presença russa, onde fiquei poucos dias — tempo suficiente, ainda assim, para descobrir contrastes curiosos e lugares que merecem ser contados.
Marcela Dâmaris
Designer de aprendizagem, praticante de Yoga e criadora da Trip.MySelf. Conduzo vivências e celebrações que integram corpo, respiração e sentido — para que cada caminho seja também um retorno para dentro.
Simplesmente sensacional! Quanta riqueza de detalhes e emoções!Vale cada segundo!👏👏👏
Zoraia, Obrigada de coração 💛. Vivi tudo com muita presença, e é especial saber que os detalhes e as emoções também tocaram você.
Maravilhas de Deus. Curta e vivência este belo.
Ana Célia, Da Lat é um lugar que convida à contemplação e à gratidão. Obrigada pelo carinho.
Que experiência rica e que texto rico! Amei demais.
Ivan, Que alegria ler isso 💛. Da Lat tem uma delicadeza que toca fundo, e fico feliz que essa experiência tenha chegado até você pelas palavras.