Vietnã Central — Entre montanhas sagradas, rios antigos e o mar que acolhe
Da Nang, Hoi An e Huế formam um trecho do Vietnã onde o caminho se torna múltiplo: ora sobe em montanhas de mármore, ora desce até rios antigos, ora se abre em praias silenciosas. Mais do que cidades, essa travessia revelou camadas — de história, espiritualidade e também de escuta interna.
Da Nang — Entre o mar, o mármore e o sagrado em movimento
Da Nang me recebeu cedo, com o mar ainda calmo. Comecei o dia na praia — um gesto que, ali, parece quase ritual — antes de seguir para a Linh Pagoda, onde jardins bem cuidados e a presença da Deusa da Compaixão criam um ambiente sereno. Cheguei vestida de short e regata e precisei colocar uma veste monástica oferecida no local. Foi curioso — e bonito — reencontrar, ainda que por instantes, a sensação da roupa simples, do corpo coberto, da presença recolhida. Fiquei ali algum tempo, sem pressa.
De lá, segui para as Marble Mountains, um dos lugares que mais me marcaram em Da Nang. O conjunto reúne tudo o que me atrai: escadas íngremes, cavernas, templos escondidos, vistas para o mar e espaços silenciosos para sentar e respirar. Há algo de profundamente simbólico em subir por dentro da montanha e, ao mesmo tempo, encontrar o sagrado esculpido em pedra. Foi um daqueles lugares onde não precisei escolher entre aventura e contemplação — as duas coexistiam.
Já Ba Na Hills foi outra experiência. Chuva, neblina, muita gente. O teleférico longo, as paradas comerciais, os espaços fechados por conta do clima. A famosa Golden Bridge, sustentada por mãos gigantes, estava tomada por visitantes disputando espaço para fotos — e a paisagem quase não se revelava por trás da névoa. O ponto alto acabou sendo o almoço: farto, bem feito, acolhedor. Às vezes, o corpo sabe quando é hora de recolher. Voltei mais cedo, cansada, com dor nas costas e sono acumulado.
Em outro dia, cheguei ao que acreditava ser o mosteiro da Deusa da Compaixão — mas havia confundido os nomes, pois os nomes vietnamitas são confusos pra mim. Lá dentro acontecia um puja simples. Fiquei um pouco, mas percebi que, depois da intensidade dos rituais tibetanos que vinha vivenciando, aquela simplicidade não me tocou da mesma forma. Também isso faz parte do caminho: reconhecer o que ressoa — e o que não.
As praias de Da Nang trouxeram outro ritmo. Red Beach, mais local, quase deserta, com música clássica tocando em alto-falantes; Non Nuoc Beach, talvez a mais bonita, conectada à My Khe, mas com uma atmosfera mais tranquila. Caminhei até o cansaço chegar, fiquei até o sol se pôr, e voltei antes de escurecer completamente. O mar ali não pede espetáculo — oferece presença.
Hoi An — Rio, rituais simples e encontros com o mar
Hoi An começou em silêncio. Acordei cedo e fiz yoga à beira do rio, enquanto a cidade despertava devagar. A Old Town, com seu ingresso único que permite visitar antigos templos e casas históricas, revelou contrastes: alguns espaços pouco expressivos, outros surpreendentes. Em um deles, uma enorme espiral de incenso pendia do teto, com escritos no centro — mistério suficiente para permanecer olhando por um tempo.
O tour para a Ilha Cham foi um dos pontos altos da viagem. Primeiro, a vila simples; depois, o barco avançando mar adentro. Minha primeira vez nadando em alto-mar. Mesmo com colete, fiquei presa à escada no começo. Até que o capitão jogou uma bóia. Segurei, respirei — e algo mudou. Flutuei. Vi peixes. Relaxei. Chorei de gratidão. Foi um daqueles momentos raros em que a sensação de colheita se impõe sem esforço. Fiquei na água até o último minuto.
Também visitei o Santuário de My Son, antigo centro espiritual do povo Cham. As ruínas, o show cultural, o contraste com templos onde se entra calçado — tudo ali tem outra lógica. Caminhei longe da multidão, como sempre faço. Mais tarde, voltei à praia An Bang e fui presenteada com um nascer de lua sobre o mar. Às vezes, o cansaço nos leva exatamente ao lugar certo.
Outro dia, segui para um passeio mais rural — campos, rios, o famoso basket boat girando na água, risadas, comida diferente. Ao entardecer, voltei ao rio, acendi duas velas flutuantes e fiz meus pedidos. Afinal, pequenos rituais sustentam grandes travessias.
Huế — História imperial, silêncio e reverência
Cheguei a Huế de trem, mas a chuva encobriu a paisagem que tantos descrevem como icônica. Ainda assim, a cidade se revelou aos poucos.
A Cidadela e a Cidade Imperial foram um verdadeiro banho de cultura. A arquitetura, os pátios, os museus com registros de apresentações tradicionais — tudo ali carrega o peso e a elegância de um passado imperial ainda vivo. Caminhar por aqueles espaços é quase um exercício de imaginação histórica.
Depois, fiz um passeio de barco pelo Rio Perfume, seguido pela visita à Pagoda Thien Mu. Entre carpas, riachos e jardins, vi também o carro do monge que ateou fogo ao próprio corpo em protesto. A imagem não choca — convoca reflexão, pois há sacrifícios que atravessam o tempo.
As tumbas imperiais revelam outra camada da história de Huế. Visitei duas delas: a Tumba de Khải Định, de estética quase gótica, com interiores ricamente ornamentados, e a Tumba de Đồng Khánh, mais aberta e integrada ao jardim, marcada por uma atmosfera serena. Em ambas, impressiona o cuidado com os detalhes e a forma como as tradições imperiais seguem sendo preservadas. Caminhar por esses espaços é sentir o tempo sendo honrado — não apenas lembrado.
No último dia, fui ao Chùa Từ Hiếu, mosteiro zen ligado a Thích Nhất Hạnh. Cercado por pinheiros, com lago, ponte de pedra e muitos túmulos — provavelmente de monges —, o lugar tem uma vibração surpreendentemente leve. Mesmo sob chuva, o som das gotas criava um ambiente de acolhimento. Nunca havia visto um cemitério com tanta paz.
Huế encerrou esse trecho da viagem com um ensinamento silencioso: honrar o passado não é ficar preso a ele, mas escutar o que ainda reverbera
Um fio comum
Da Nang trouxe o movimento, Hoi An ofereceu fluidez, Huế pediu reverência. Entre praias, montanhas, rios e templos, o Vietnã Central mostrou que o caminho não é linear — ele se ajusta ao corpo, ao cansaço e à escuta.
Seguir adiante, às vezes, é apenas aprender a parar no lugar certo.
No próximo capítulo: Ninh Binh e Cat Ba. Onde a água desacelera o caminho
Para quem chega agora
Este texto faz parte de uma travessia mais ampla pelo Vietnã — um percurso feito de cidades, encontros e pequenos ensinamentos que surgem no caminho. Se você chegou por aqui agora, estes são os capítulos anteriores dessa jornada:
📍 Vietnã Central — entre o mar, o sagrado e o desfrute simples
Nha Trang, Tuy Hoa e Quy Nhon revelam diferentes formas de viver o litoral: do turismo intenso às cidades onde o cotidiano ainda dita o ritmo. Um percurso entre praias, templos antigos, heranças do povo Cham e a redescoberta do prazer nas coisas simples.
📍 Da Lat — A eterna primavera entre montanhas, fé e silêncios
Arquitetura colonial, templos budistas e natureza em altitude. Um refúgio de clima ameno onde caminhar devagar virou convite à introspecção.
📍 Mekong Delta — entre ilhas, tradições e pequenos encantos
Uma imersão no sul do país, onde o rio organiza a vida, o trabalho e os rituais cotidianos. Um Vietnã guiado pela água, pela escuta e pelos gestos simples.
📍 Ho Chi Minh — primeiros passos pelo sul do Vietnã
Caminhadas, contrastes urbanos e histórias que surgem entre cafés, mercados e templos.
📍Vietnã — um convite ao desfrute abundante
Um relato que não fala de lugares, mas de percepções: da capacidade de desacelerar, de sentir sutilezas e de acolher o que a viagem desperta. Um texto sobre permitir que a vida floresça por dentro tanto quanto o país floresce por fora.
Marcela Dâmaris
Designer de aprendizagem, praticante de Yoga e criadora da Trip.MySelf. Conduzo vivências e celebrações que integram corpo, respiração e sentido — para que cada caminho seja também um retorno para dentro.
Texto muito bem escrito cujas descrições detalhadas e repletas de sentimentos q me transportaram para os locais descritos e me fizeram sentir parte da viagem.🤩.
Anesia, Que alegria ler isso 💛. Fico muito feliz que o texto tenha conseguido te levar junto na viagem. Obrigada por sentir e caminhar comigo pelas palavras.
Matéria interessante e perfeita!
Parabéns, Marcela!
Obrigada, Wanda! 💛. É uma alegria poder compartilhar
Excelente, poético e inspirador seu texto!
A descrição dos lugares me faz sentir presente neles!
Obrigada por compartilhar essa vivência incrível e inspiradora!
Abraço Forte!
Maria Aparecida, Obrigada pelo abraço e pelas palavras 💛. É uma alegria dividir essa experiência e saber que ela também te tocou.