O Diwali, também chamado de Deepavali, é uma das grandes celebrações do calendário religioso e cultural da Índia. Quando vivi esse período no país, uma das coisas que mais me marcou foi a atmosfera de celebração que parecia tomar conta de tudo. A Índia já é intensamente colorida, mas, durante o Diwali, as luzes, as decorações e o movimento das ruas deixam essa experiência ainda mais viva. E assistir aos fogos de artifício me fez lembrar, por alguns instantes, das celebrações de Ano-Novo no Brasil.
Conhecido como o Festival das Luzes, o Diwali reúne lamparinas acesas, encontros familiares, doces, presentes, orações e diferentes rituais. Sua imagem mais conhecida é a da luz vencendo a escuridão, associada também ao triunfo do bem sobre aquilo que ameaça a ordem e o equilíbrio.
Mas compreender o Diwali exige ir além dessa imagem.
Não existe uma única história capaz de explicar a festa, nem uma forma de celebrá-la em toda a Índia. Diferentes regiões, comunidades e tradições religiosas atribuem ao período narrativas, divindades e costumes próprios.
O que significa Diwali — e por que as luzes são tão importantes?
O nome Deepavali vem do sânscrito e pode ser traduzido como “fileira de luzes” ou “fileira de lamparinas”.
As pequenas luminárias de barro, chamadas diyas, tornaram-se um dos símbolos mais reconhecidos da celebração. Elas são colocadas nas casas, nas entradas, nos pátios e nos templos, transformando a iluminação em um gesto carregado de significado.

Acender uma chama torna visível uma das imagens centrais do festival: afastar a escuridão e abrir espaço para a luz.
Em muitas famílias hindus, essas luzes também estão relacionadas a Lakshmi, Deusa associada à prosperidade, à boa fortuna e ao bem-estar.
Por isso, os preparativos podem incluir a limpeza e a organização da casa, decorações e a realização de uma puja, cerimônia devocional que pode envolver orações e oferendas.
Nesse contexto, prosperidade não se limita ao desejo de dinheiro. O período também pode expressar renovação, cuidado com o lar e a esperança de condições favoráveis para um novo ciclo.
Por que o Diwali é celebrado?
Não existe uma única resposta para essa pergunta. As histórias associadas ao Diwali mudam conforme a região, a comunidade e a tradição religiosa.
Mais do que procurar uma única versão “correta”, é possível compreender essas narrativas como diferentes maneiras de expressar temas que atravessam a celebração: retorno, libertação, renovação, proteção e vitória da luz sobre aquilo que obscurece.
O retorno de Rama
No norte da Índia, uma das histórias mais difundidas relaciona o Diwali ao retorno de Rama a Ayodhya, acompanhado de Sita e Lakshmana, depois de 14 anos de exílio e da vitória sobre Ravana.
As luzes celebram sua volta e representam o triunfo do bem.
Krishna e Narakasura
Em partes do sul da Índia, ganha destaque a narrativa da vitória de Krishna sobre Narakasura.
A celebração recorda a derrota de uma força opressora e a libertação daqueles que estavam submetidos a ela.
Lakshmi e a prosperidade
Para muitas famílias hindus, um dos momentos centrais do festival é a devoção a Lakshmi.
Orações, oferendas e luzes expressam o desejo de acolher prosperidade, bem-estar e condições favoráveis para a vida florescer.
O Diwali no jainismo
Para os jainistas, o período possui um significado próprio.
O Diwali marca a libertação final de Mahavira, importante mestre do jainismo, do ciclo de nascimento e morte.
A celebração compartilha o mesmo período festivo, mas sua referência religiosa é diferente daquela encontrada nas tradições hindus.
Bandi Chhor Divas e a tradição sikh
Entre os sikhs, o período também está associado ao Bandi Chhor Divas, que recorda a libertação do Guru Hargobind do cativeiro.
Assim, luzes semelhantes podem aparecer em diferentes comunidades sem que todas estejam celebrando a mesma narrativa.
Como o Diwali muda de uma região para outra?
As diferenças não aparecem apenas nas narrativas. Os próprios costumes mudam de uma região para outra
As diferenças regionais não funcionam como regras rígidas — tradições familiares e religiosas podem variar bastante —, mas alguns exemplos ajudam a perceber como o festival assume formas distintas pelo país, conforme mostra o infográfico:

Como é o Diwali na prática?
Apesar das diferenças, alguns gestos aparecem com frequência em muitas comunidades.
É comum preparar a casa antes da festa, limpando e decorando os ambientes. Diyas são acesos em portas, janelas, pátios e altares.
Também aparecem os rangolis, desenhos feitos no chão — muitas vezes próximos à entrada das casas — com pós coloridos, arroz, flores ou outros materiais.

Roupas novas, presentes, encontros familiares e o compartilhamento de doces também fazem parte de muitas celebrações.
Dependendo da tradição da família, há orações, oferendas e visitas aos templos.
Os fogos de artifício se tornaram bastante populares em muitos lugares, embora sejam as lamparinas que carregam de maneira mais direta a imagem religiosa que dá nome à festa.
O Diwali reúne, assim, duas dimensões ao mesmo tempo:
a intimidade da casa, da família e do altar doméstico; e a dimensão coletiva das ruas iluminadas, dos encontros e das celebrações públicas.
Um Diwali vivido em Rishikesh
Quando vivi o Diwali na Índia, uma coisa me lembrou bastante o clima que sentimos no Brasil em épocas como o Natal e o Ano-Novo: a sensação de celebração coletiva, encontro e partilha.
Em 2024, em Rishikesh, participei de uma ação organizada por uma brasileira que desenvolve um projeto com crianças que vivem às margens do Ganges. Pessoas de diferentes países se juntaram aos indianos para celebrar com as crianças, em um encontro que reuniu doações de roupas e brinquedos, comida e convivência.
Foi uma maneira muito concreta de perceber que, para além das luzes e das festas, aquele período também podia abrir espaço para compartilhar aquilo que temos com outras pessoas.

Quantos dias dura o Diwali?
O Diwali costuma ser apresentado como um festival de cinco dias, celebrado entre outubro e novembro de acordo com o calendário que combina os ciclos da Lua e do Sol.
A noite principal coincide com a lua nova, mas a importância de cada dia e a própria organização do festival podem variar de uma região para outra.
Incluí uma sequência bastante difundida no infográfico abaixo:

Essa organização em cinco dias ajuda a compreender o festival, mas não funciona como um calendário único seguido da mesma maneira por todas as comunidades.
Algumas curiosidades ajudam a compreender melhor o Diwali
O Diwali não é o Ano-Novo de toda a Índia
Em algumas comunidades, como a gujarati, o festival está diretamente ligado à chegada de um novo ano.
Em outras regiões, o calendário é diferente. Em Tamil Nadu, por exemplo, o tradicional Puthandu, o Ano-Novo tâmil, acontece em abril.
Prosperidade também se relaciona à vida comercial
A associação de Lakshmi à prosperidade ajuda a compreender a presença de práticas relacionadas a negócios, compras auspiciosas e livros de contabilidade.
Em algumas comunidades, religião, vida familiar e atividade econômica se encontram no mesmo período de renovação.
O Diwali atravessou as fronteiras da Índia
Hoje o festival também é celebrado em países como Nepal, Malásia e Fiji, além de comunidades da diáspora sul-asiática espalhadas por diferentes partes do mundo.
Assim como acontece dentro da própria Índia, essas celebrações assumem novas formas conforme a história e a tradição das comunidades que as mantêm vivas.
O que permanece quando as luzes se apagam?
Entre tantas histórias, divindades e formas de celebrar, existe uma imagem que atravessa o Diwali: acender uma luz em meio à escuridão.
Uma pequena chama não elimina a noite.
Mas transforma a maneira como conseguimos atravessá-la.
É justamente essa imagem que permite que o Festival das Luzes continue reunindo significados tão diferentes: retorno, libertação, prosperidade, renovação, proteção e recomeço.
Mais do que perguntar qual é a única história do Diwali, podemos reconhecer aquilo que suas diferentes histórias continuam lembrando:
a luz precisa ser cultivada.
Quer viver o Diwali presencialmente?
No dia 7 de novembro, a Trip.MySelf celebra o Diwali no Tao Tien, em Minas Gerais.
Será uma tarde e uma noite para nos aproximarmos do sentido do Festival das Luzes por meio da prática, da convivência e de gestos que fazem parte dessa celebração — entre eles, o preparo de chapati, o encontro ao pôr do sol e um ritual com luzes.
Mais do que conhecer o Diwali, o convite é experimentar alguns de seus símbolos e sentidos em presença.
Referências para aprofundamento
- Encyclopaedia Britannica. Diwali: Festival of Lights.
https://www.britannica.com/story/the-festival-of-lights - Incredible India — Ministry of Tourism, Government of India. Diwali.
https://www.incredibleindia.gov.in/en/festivals-and-events/diwali - Hindu American Foundation. All About Diwali.
https://www.hinduamerican.org/diwali - JAINA — Federation of Jain Associations in North America. Diwali and Mahavira Nirvana.
https://www.jaina.org/page/10_19_2017_Newslette - Shiromani Gurdwara Parbandhak Committee. Sri Guru Hargobind Sahib Ji.
https://new.sgpc.net/ten-guru-sahibs/guru-hargobind-sahib/ - The Open University. What is Diwali?
https://www.open.edu/openlearn/history-the-arts/religious-studies/what-diwali
