Minha jornada espiritual no Nepal: devoção, simplicidade e acolhimento*
Depois de escrever sobre os lugares que mais me tocaram em Kathmandu, quero agora compartilhar outro lado da experiência: a rotina silenciosa e, ao mesmo tempo, profundamente transformadora que vivi no Nepal.
Entre práticas de yoga ao amanhecer, pujas que ecoavam no corpo e caminhadas circulando as stupas, descobri que o cotidiano também pode ser um templo. Este texto recolhe os gestos simples que me sustentaram nesses meses — uma liturgia íntima, repetida com carinho, que me ensinou a ouvir o que ainda sussurrava por dentro.
Lumbini: onde tudo começou
Cheguei a Lumbini no início de abril e fiquei por 15 dias. Se não fosse o calor que aumentava a cada dia, teria ficado mais tempo.
Lumbini é a cidade onde Buda nasceu — um lugar auspicioso, onde a sacralidade pode ser sentida a cada passo.
Passei dois dias em um monastério coreano, vivenciando a vida austera.
A cada dia visitava templos de diferentes países budistas, mas meu preferido era o japonês. Todas as tardes ia meditar exatamente no local onde Buda nasceu (Templo Maha Devi)
Foi lá que nasceu o projeto Trip.MySelf e percebi que estava pronta para compartilhar saberes e práticas.








Onde tudo começou, a jornada interior também floresce
Pokhara: descanso e criação
De Lumbini, segui para Pokhara, uma cidade turística, mas tranquila, envolta por uma natureza que convida à pausa.
Ali, entre lagos serenos e pores do sol que pareciam aquecer a alma, encontrei dias de verdadeiro repouso e escrita fluida. Era como se o tempo abrandasse só para que eu pudesse escutar meu próprio silêncio interior.
As manhãs começavam com caminhadas leves às margens do Lago Phewa, onde o reflexo das montanhas no espelho d’água sussurrava sabedorias antigas. À tarde, escolhia cafés silenciosos com vista para os Annapurnas, e deixava que as palavras brotassem sem esforço — como se sempre estivessem ali, à espera.
Foi nesse cenário de quietude e contemplação que tomei forma à Jornada Solar — um projeto nascido da escuta sensível da alma, onde reuni práticas, vivências e saberes colhidos ao longo do meu caminho. Pokhara me ofereceu o dom da clareza, a beleza da simplicidade e o silêncio fértil da criação.








Pokhara, onde a paz da paisagem se transforma em inspiração.
Kathmandu: rotina simples, alma nutrida
Em maio, cheguei a Kathmandu e encontrei uma casa para morar por quatro meses. Dividia o espaço com outros hóspedes, mas minhas companhias mais fiéis foram Sermo e Dhamjoo, duas cachorras meigas e carinhosas.
Criei uma rotina simples, mas profundamente espiritual:
- Prática de Yoga em casa pela manhã;
- Kora (circumbulação) na Budha Stupa;
- Pujas femininos no Park Boudha;
- Meditação no Shechen Monastery;
- Estudo de inglês e trabalho no Trip.MySelf;
- À tarde, participação em pujas de mosteiros com acústica impressionante.
- Á noite, meditação na entrada dentro da Boudha Estupa.
Sentada no fundo dos templos, deixava o som reverberar pelo corpo. Era difícil descrever: cada instrumento tocava de forma tão terna e curativa que às vezes lágrimas vinham sem esforço. Quando o som chegava ao peito, sentia meu coração se inundar de amor (🎥 ouça abaixo um dos pujas).
Esses momentos me ensinaram sobre limites, autocuidado e respeito ao livre-arbítrio do outro.
A beleza da simplicidade nepalesa
No Nepal, aprendi que a vida pode ser simples sem perder profundidade.
É um país pobre, mas nunca vi um povo tão generoso e disposto a partilhar. Um sorriso sempre vem antes das palavras.
Depois de um ano perambulando, pude descansar e ter o conforto de uma casa. Para quem é mochileiro, um fogão e uma geladeira são verdadeiros luxos.
Cada circumbulação nas stupas, cada prostração diante das divindades aumentava minha conexão com uma espiritualidade simples, mas profunda.
As flores e frutos oferecidos, o aroma dos incensos dissolvendo a negatividade, as lamparinas iluminando caminhos, as bandeiras de oração tremulando ao vento levando bênçãos ao céu — tudo se tornou parte de mim. Assista abaixo um dos vídeos, onde mostro um dos meus lugares preferidos para fazer a meditação caminhando.
Reflexões de alma
Nesse ambiente espiritual, percebi que não é preciso muito para viver feliz. O essencial é ouvir o que a alma anseia.
Ter a oportunidade de vivenciar uma cultura tão diferente da brasileira, com outra forma de se relacionar com o sagrado, foi uma dádiva.
Às vezes brinco que só alguém que foi monge em outra vida conseguiria passar duas horas sentado ouvindo um puja — mas talvez tenha sido isso mesmo (😅).








Em Kathmandu, o sagrado dança entre velas, templos e ruas — e cada olhar encontra um altar invisível.
Convite final
Se você chegou até aqui, deixo um convite:
👉 O que faz seu coração vibrar?
👉 Você tem ouvido o que sua alma pede?
👉 Ou segue no modo automático — trabalhar, pagar contas, acumular dívidas, comer correndo, dormir mal e recomeçar o ciclo?
Como disse no primeiro texto do blog: existem muitas formas de reencontrar a si mesmo: meditar, fazer terapia, explorar práticas integrativas…
Desejo que você encontre a ferramenta que te ajude a se conectar com o que é mais precioso para você. E que você encontre o seu “Nepal por dentro”: práticas, experiências e pequenos rituais diários para que a vida se torne um templo habitado com presença.








Nos monastérios e stupas, o Nepal revela sua alma: feita de silêncio, cor e fé que atravessa gerações
* Nota de contexto: Este relato é um diário de vivências em Nepal, escrito antes dos acontecimentos políticos recentes. Compartilho com respeito e solidariedade ao povo nepalês.
Marcela Dâmaris
Designer de aprendizagem, praticante de Yoga e criadora da Trip.MySelf. Conduzo vivências e celebrações que integram corpo, respiração e sentido — para que cada caminho seja também um retorno para dentro.
Uau, Marcela! Que texto lindo e inspirador! Me senti vivendo tudo isso junto com você, ao ler cada palavra. Que experiência única e profunda! Gratidão por compartilhar! Quero seguir acompanhando. ❤️
Araceli,
Que alegria ler isso! Saber que minhas palavras puderam te transportar um pouco para essa vivência me toca profundamente. O Nepal realmente me marcou e fico grata em poder partilhar. Será lindo ter você me acompanhando nessa jornada 🙏