Vietnã Central: Nha Trang, Tuy Hoa e Quy Nhon entre o mar, o sagrado e o simples

Vietnã Central — Entre o Mar, o Sagrado e o Desfrute Simples

Nha Trang, Tuy Hoa e Quy Nhon: três cidades, um mesmo litoral — e diferentes formas de habitar o caminho

Ao seguir pela costa do Vietnã Central, o mar passa a ser mais do que paisagem: ele dita o ritmo, o cansaço e, aos poucos, também o descanso. Entre cidades mais turísticas e outras voltadas ao cotidiano local, essa travessia revelou contrastes e pequenos ensinamentos.

A herança Cham no litoral do Vietnã Central

Antes de Nha Trang, Tuy Hoa e Quy Nhon se tornarem cidades costeiras, esta região fazia parte do Reino de Champa, uma civilização influenciada pelo hinduísmo que ocupou o litoral central do Vietnã por mais de mil anos. Diferente do Vietnã atual, marcado pelo budismo e confucionismo, os Cham cultivavam uma espiritualidade ligada à natureza, ao mar e às forças criadoras.

As torres Cham, ainda visíveis nessas três cidades, são os principais vestígios dessa presença. Construídas em tijolos vermelhos, empilhados sem argamassa, com um encaixe preciso e uma resina vegetal (gika) usada para unir e impermeabilizar, criando estruturas maciças, altas e duradouras. Erguidas em colinas ou às margens de rios, funcionavam como templos dedicados a divindades hindus e à deusa-mãe, símbolo de fertilidade, proteção e abundância. Sua localização elevada não era casual: para o povo Cham, o sagrado fazia parte da paisagem.

Mesmo após a incorporação do território ao Vietnã, essa herança permanece. As torres seguem sendo lugares de visita, oferenda e contemplação — marcas silenciosas de uma cultura que continua a atravessar o tempo e a moldar a experiência do litoral central.

Torres Cham no litoral do Vietnã Central
Torres Cham no Vietnã Central: Quy Nhon, Tuy Hoa e Nha Trang vestígios de uma mesma herança espalhados ao longo do litoral.

Nha Trang — Espiritualidade antiga em meio ao turismo intenso

Nha Trang é uma cidade costeira movimentada, marcada pela presença constante de turistas — especialmente russos —, praias urbanas e uma infraestrutura claramente voltada ao lazer. Ainda assim, há camadas mais antigas que resistem ao ritmo acelerado da orla.

Praia de Nha Trang com mar calmo e faixa urbana, um dos principais pontos turísticos do litoral central do Vietnã.
A praia urbana de Nha Trang: movimentada, turística — e ainda assim capaz de oferecer instantes de contemplação.

No Pagode Long Son, construído no século XIX, a enorme estátua branca de Buda domina a colina e atrai visitantes do mundo todo. Subi as escadarias devagar, fiz uma breve reverência no altar e permaneci algum tempo observando a vista panorâmica da cidade. O lugar estava cheio, e embora a tentativa de meditação tenha sido atravessada pelo cansaço acumulado da viagem, o templo ainda assim cumpriu seu papel: lembrar que, mesmo em cidades agitadas, o sagrado encontra formas de permanecer.

O Pagode Long Son, com sua imensa estátua branca de Buda, observa a cidade do alto — um ponto de pausa em meio ao movimento constante de Nha Trang.

Aqui, as torres Cham reaparecem no alto da colina como presença silenciosa. Esperei o espaço esvaziar e permaneci ali por alguns instantes. O cansaço seguia presente, mas o silêncio — denso e antigo — sustentava algo mais profundo…

O Promontório Hon Chong é um dos pontos naturais mais visitados de Nha Trang. As formações rochosas empilhadas à beira-mar resistem ao tempo e às ondas, e carregam lendas locais sobre amor, perda e permanência. Uma delas fala da marca de uma mão gravada na rocha — vestígio de um homem que teria tentado salvar a esposa durante uma tempestade.

O local estava cheio. Esperei que esvaziasse para conseguir tirar algumas fotos e, dessa vez, pedi ajuda a uma mulher que passava por ali. Em meio à balbúrdia, encontrei cantos mais tranquilos — especialmente do outro lado, onde pescadores locais seguiam seu ritmo cotidiano, longe do circuito turístico. Fiquei ali algum tempo, apenas contemplando o mar.

Nha Trang foi, para mim, uma cidade de passagem: interessante, intensa, mas que pediu mais observação do que permanência.

Promontório Hon Chong em Nha Trang, formação rochosa à beira-mar com vista para o oceano e marcas naturais nas pedras.
O Promontório Hon Chong: rochas moldadas pelo tempo, lendas locais e o mar como horizonte constante.

Tuy Hoa — O prazer do simples e o turismo que ainda é local

Foi em Tuy Hoa que algo mudou. Menos turística, mais cotidiana, a cidade revelou um Vietnã vivido de dentro — e foi ali que senti vontade de ficar.

No Pagode Chùa Bảo Lâm, a tranquilidade começa já na subida. Entre as escadarias, surgem pequenos “tesouros”: primeiro, a estátua de Buda; depois, o sino. Ao tocá-lo, senti a vibração reverberar dentro do corpo — e usei aquele som como apoio para uma breve meditação.

Mais adiante, o Jardim dos 18 Arhats trouxe outra camada. As esculturas representam discípulos de Buda, símbolos de disciplina, renúncia e despertar.

Pagode Chùa Bảo Lâm, Tuy Hoa
Chùa Bảo Lâm: um dos espaços espirituais mais tranquilos de Tuy Hoa.

Outro lugar que ficou foi o Pagode Thanh Lương. Construído com materiais naturais como coral, conchas e cascas de coco, ele parece surgir da própria paisagem. A estátua de Buda, com cerca de sete metros, emerge de um lago, criando uma atmosfera serena. Diz a lenda que uma imagem de Buda foi levada pela correnteza até a costa próxima — e dali nasceu o templo. Verdade ou não, o silêncio do lugar sustenta a história.

Estátua de Buda no lago de lótus do Pagode Thanh Lương em Tuy Hoa, cercada por água e elementos naturais.
O Pagode Thanh Lương parece emergir da paisagem: Buda, água, lótus e silêncio no mesmo gesto.

Já em Gành Đá Đĩa, a natureza assume o protagonismo. Milhares de colunas de basalto formam desenhos geométricos impressionantes, resultado de erupções vulcânicas antigas. Caminhei entre as pedras, encontrei uma praia quase deserta e, mais uma vez, agradeci por tanto.

Gành Đá Đĩa: colunas de basalto moldadas pelo tempo, onde a paisagem fala mais alto.

Também visitei uma Torre Cham, que funciona como  um mirante deslumbrante com vista para a cidade e o Rio Da Rang. Um grupo de adolescentes vietnamitas puxou conversa, pediu fotos, riu. Permaneci ali mais um tempo antes de descer — observando como o sagrado e o cotidiano convivem naturalmente.

Tuy Hoa ainda revelou outras camadas: um memorial dedicado aos heróis da guerra, caminhadas longas pela praia de tom esmeralda, pores de sol vistos da sacada do hotel, o Farol Gành Đèn recortando o horizonte. Entre uma descoberta e outra, me vi rindo, brincando com as ondas do mar.

Ali ficou claro: além de atravessar países, eu estava cuidando da minha criança interior — mostrando a ela que o prazer, a leveza e o desfrute também fazem parte do caminho.

A praia de Tuy Hoa: espaço de caminhar, brincar com o mar e aprender a usufruir do simples.

Quy Nhon — Onde a paisagem fala mais alto

Quy Nhon foi uma passagem mais curta, mas marcada por paisagens impressionantes. A cidade equilibra litoral, história e natureza de forma direta, quase sem intermediários.

Dunas de areia moldadas pelo vento, onde o litoral do Vietnã Central revela sua face mais aberta e silenciosa.

As dunas, a ilha de Ky Co e o mirante de Eo Gio revelam um Vietnã voltado para o mar aberto. Essa faixa do litoral sempre foi território de passagem, pesca e comércio, marcada pela presença do povo Cham e por uma relação direta com o oceano como fonte de sustento e orientação. Hoje, esses mesmos lugares seguem conectando paisagem e vida cotidiana — agora compartilhadas com quem chega de fora. A visita à ilha de Ky Co foi especialmente marcante — não apenas pela beleza, mas pela organização cuidadosa da agência local, que tornou a experiência fluida e respeitosa.

Vista do mirante de Eo Gio, em Quy Nhon, com falésias rochosas e o mar aberto do Vietnã Central ao fundo.
Do mirante de Eo Gio, o litoral se abre em curvas de pedra, vento constante e mar sem pressa.

Em Quy Nhon, cheguei às torres Cham gêmeas ao fim da tarde, conduzida por uma motorista mulher — a primeira que encontrei em todo o país. Fiquei ali algum tempo, contemplando a beleza simples do lugar e o silêncio que se formava com a luz mais baixa, como se a paisagem pedisse apenas presença

Quy Nhon foi menos introspectiva, mais visual — um lembrete de que algumas cidades falam através da paisagem, não do silêncio.

Mar azul-turquesa na ilha de Ky Co, em Quy Nhon, com águas claras e faixa de areia clara no litoral do Vietnã Central.
Ky Co, frequentemente comparada às “Maldivas do Vietnã”, combina águas claras e paisagem aberta no litoral central do país.

Um mesmo litoral, diferentes aprendizados

Entre Nha Trang, Tuy Hoa e Quy Nhon, o Vietnã Central se revelou em contrastes: turismo intenso e vida local, templos antigos e risadas na praia, contemplação e brincadeira.

Se Nha Trang mostrou o peso da história e do movimento, Tuy Hoa ensinou o prazer do simples. Quy Nhon, por sua vez, abriu o olhar para a força da paisagem.

Caminhar por essas cidades foi compreender que nem todo lugar precisa ser profundo da mesma forma — alguns nos atravessam pelo silêncio, outros pelo riso, outros apenas pela beleza de estar ali.

E, às vezes, isso basta.

A travessia pelo Vietnã Central continua. No próximo capítulo o mar permanece, mas os rios, as cidades antigas e a antiga capital imperial começam a conduzir a travessia.

Para quem chega agora

Este texto faz parte de uma travessia mais ampla pelo Vietnã — um percurso feito de cidades, encontros e pequenos ensinamentos que surgem no caminho. Se você chegou por aqui agora, estes são os capítulos anteriores dessa jornada:

📍 Da Lat — A eterna primavera entre montanhas, fé e silêncios
Arquitetura colonial, templos budistas e natureza em altitude. Um refúgio de clima ameno onde caminhar devagar virou convite à introspecção.

📍 Mekong Delta — entre ilhas, tradições e pequenos encantos
Uma imersão no sul do país, onde o rio organiza a vida, o trabalho e os rituais cotidianos. Um Vietnã guiado pela água, pela escuta e pelos gestos simples.

📍 Ho Chi Minh — primeiros passos pelo sul do Vietnã
Caminhadas, contrastes urbanos e histórias que surgem entre cafés, mercados e templos.

📍Vietnã — um convite ao desfrute abundante
Um relato que não fala de lugares, mas de percepções: da capacidade de desacelerar, de sentir sutilezas e de acolher o que a viagem desperta. Um texto sobre permitir que a vida floresça por dentro tanto quanto o país floresce por fora.

Foto de Marcela Dâmaris

Marcela Dâmaris

Designer de aprendizagem, praticante de Yoga e criadora da Trip.MySelf. Conduzo vivências e celebrações que integram corpo, respiração e sentido — para que cada caminho seja também um retorno para dentro.

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