O que significa viver com abundância?
Ter recursos materiais é importante. O dinheiro sustenta necessidades, oferece segurança e amplia possibilidades. Mas será que prosperidade se limita àquilo que possuímos?
Na tradição hindu, Lakshmi amplia essa compreensão.
Deusa da prosperidade, da beleza, da boa fortuna e do bem-estar, ela representa tanto a riqueza que sustenta a existência quanto as qualidades que permitem à vida florescer: cuidado, generosidade, gratidão e a capacidade de reconhecer aquilo que tem valor.
Quem é Lakshmi?
Lakshmi também é chamada de Śrī, palavra sânscrita associada à beleza, à prosperidade, à boa fortuna e àquilo que favorece o florescimento da vida.
Śrī não se refere apenas à riqueza material. Pode ser compreendida como uma qualidade de plenitude presente na natureza, nas relações e naquilo que floresce quando encontra condições favoráveis.
Em Awakening Shakti, Sally Kempton apresenta Lakshmi como a energia divina que nutre e sustenta a vida, relacionando sua presença à harmonia, à vitalidade, à beleza e à satisfação.
Essa leitura traz também uma questão interessante: ter mais e sentir-se nutrido pela vida não são necessariamente a mesma coisa.
Não se trata de negar a importância do dinheiro ou das condições materiais. Trata-se de ampliar a pergunta sobre o que significa, de fato, viver uma vida próspera.
O surgimento de Lakshmi no Oceano de Leite
Uma das narrativas mais conhecidas sobre Lakshmi conta a agitação do Oceano de Leite, episódio conhecido em sânscrito como Samudra Manthana.
Segundo o mito, dois grupos de seres celestiais, devas e asuras, unem seus esforços para agitar o oceano cósmico em busca do néctar da imortalidade. Durante esse movimento, diferentes tesouros e seres extraordinários emergem das águas.
Entre eles está Lakshmi, que surge radiante sobre uma flor de lótus. Em muitas versões da narrativa, ela escolhe Vishnu, divindade associada à preservação da ordem cósmica, como seu consorte.

Mais do que narrar o surgimento da Deusa, esse mito também ajuda a compreender aquilo que Lakshmi representa: as condições que permitem à vida ser nutrida, sustentada e florescer.
Seu aparecimento a partir do oceano cósmico pode ser lido como uma imagem de abundância que emerge quando forças diferentes entram em movimento e produzem algo novo.
A narrativa também nos convida a observar como nos relacionamos com os recursos disponíveis, com aquilo que recebemos e com as condições que favorecem o florescimento da vida.
Os símbolos de Lakshmi
As representações de Lakshmi variam conforme a tradição e a época, mas alguns elementos aparecem com frequência em sua iconografia. Lótus, moedas, água, elefantes, cores e gestos ajudam a expressar diferentes dimensões associadas à Deusa.
Mais do que elementos decorativos, esses símbolos formam uma linguagem visual: falam de prosperidade, fertilidade, beleza, proteção e da capacidade de sustentar aquilo que floresce.
No infográfico abaixo, reuni alguns dos principais símbolos associados a Lakshmi e seus significados.

Os gestos das mãos
Dois gestos aparecem com frequência nas representações de Lakshmi.
No Abhaya Mudra, a mão está erguida, com a palma voltada para a frente. O gesto está associado à proteção, à tranquilização e à ausência de medo.
No Varada Mudra, a mão assume uma posição de concessão, frequentemente voltada para baixo. É um gesto relacionado à generosidade e à oferta de bênçãos. Em algumas representações, moedas douradas fluem dessa mão.
Juntos, esses gestos expressam duas dimensões complementares de Lakshmi: amparo e generosidade.

As moedas de Lakshmi: receber, cuidar e compartilhar
Uma das imagens mais conhecidas de Lakshmi mostra moedas douradas fluindo continuamente de sua mão aberta.
Elas representam riqueza, prosperidade e boa fortuna. Mas também podem abrir uma reflexão sobre como nos relacionamos com aquilo que recebemos.
No capítulo dedicado a Lakshmi, Sally Kempton relaciona o dinheiro a duas questões fundamentais: valor e troca.
Dinheiro envolve trabalho, tempo, compromisso e cuidado. Por isso, uma relação consciente com a prosperidade não se limita a receber recursos: envolve também administrá-los, preservá-los e escolher como utilizá-los.
Cuidar do dinheiro, evitar desperdícios, preservar água e energia e reconhecer o valor do próprio trabalho também fazem parte dessa relação.
Abundância que circula, portanto, não significa gastar indiscriminadamente ou abrir mão da segurança financeira.
Significa encontrar equilíbrio entre receber, cuidar e compartilhar.
A graça de Lakshmi
Lakshmi também está associada à graça, à compaixão e à capacidade de nutrir relações.
Além da fortuna e do sucesso, Sally Kempton destaca qualidades mais duradouras associadas à Deusa, como integridade, empatia, compaixão e amor.
Em algumas correntes devocionais do hinduísmo, Lakshmi também é compreendida como uma presença compassiva, capaz de acolher e interceder pelos devotos.
Essa dimensão amplia novamente o significado da prosperidade: o cuidado que recebemos, os vínculos que cultivamos e nossa capacidade de oferecer apoio também participam de uma vida abundante.
As oito formas de Lakshmi
Lakshmi também é representada em oito formas, conhecidas como Ashta Lakshmi. Cada uma destaca uma dimensão diferente da prosperidade, conforme mostro no infográfico abaixo:

Os nomes e as representações podem variar conforme a tradição. O conjunto nos mostra que prosperidade não é uma condição única: ela pode envolver sustento, conhecimento, coragem, relações, realização e desenvolvimento espiritual.
Lakshmi e o equilíbrio entre receber e oferecer
Um dos ensinamentos centrais apresentados por Sally Kempton é o equilíbrio entre receber e oferecer. Receber sem compartilhar pode favorecer o apego; oferecer continuamente, ignorando as próprias necessidades, também pode produzir desequilíbrio. Nesse sentido, generosidade não significa esgotamento, mas uma relação mais consciente com aquilo que recebemos, preservamos e colocamos em circulação.
A generosidade e a doação ocupam um lugar importante em diferentes tradições indianas. E essa partilha não se limita a recursos materiais: pode envolver tempo, atenção, trabalho, conhecimento e cuidado.
Foi a partir dessa relação entre nutrir, receber e compartilhar que estruturamos as três noites dedicadas a Lakshmi na experiência online de Navaratri da Trip.MySelf:
FLORESCER — cultivar as condições que permitem à vida se desenvolver.
ACOLHER — reconhecer nossas necessidades e nos permitir receber.
COMPARTILHAR — perceber aquilo que podemos oferecer de maneira consciente e generosa.
Por meio do corpo, da respiração, dos gestos simbólicos e da contemplação, buscamos trazer essas ideias para situações concretas da vida e observar como nos relacionamos, no cotidiano, com aquilo que recebemos, cultivamos e compartilhamos.
Como cultivar uma relação devocional com Lakshmi?
Em diferentes tradições hindus, Lakshmi é reverenciada por meio de mantras, oferendas, flores, luzes e práticas de cuidado com o ambiente.
Sua presença é especialmente celebrada durante o Diwali, a festa das luzes, quando muitas famílias limpam e organizam suas casas, acendem lamparinas e realizam rituais em sua homenagem. Esses gestos expressam não apenas devoção, mas também a preparação de um espaço considerado propício para acolher sua presença.
Entre as formas de reverenciar Lakshmi está também a recitação de mantras. Um deles é:
Um mantra dedicado a Lakshmi
Na gravação abaixo, Anuradha Paudwal interpreta um mantra tradicional dedicado a Mahalakshmi. O prefixo mahā significa “grande”; assim, Mahalakshmi pode ser compreendida como “Grande Lakshmi”, uma forma reverencial de se referir à Deusa em sua dimensão plena e auspiciosa.
Se quiser experimentar, ouça primeiro algumas repetições e, depois, acompanhe o mantra com a voz. Mais importante do que a velocidade é manter a atenção no som e na intenção da prática.
Mais do que buscar uma tradução literal de cada som, o mantra pode ser compreendido como uma forma de direcionar a atenção e a devoção para a presença e os atributos da Deusa.
Para quem deseja se aproximar desses ensinamentos por meio de uma prática pessoal, esse encontro pode começar de forma simples: reservar alguns minutos de quietude, contemplar uma imagem da Deusa, entoar o mantra com atenção e permanecer em silêncio.
A contemplação pode, então, se estender para além desse momento e ganhar expressão no cotidiano: cuidar do ambiente, organizar as finanças, reconhecer algo pelo qual somos gratos ou oferecer um gesto possível de generosidade.
É nessa perspectiva que a Trip.MySelf propõe suas práticas contemplativas: como experiências inspiradas nesses símbolos e ensinamentos, sem a pretensão de reproduzir ou substituir os rituais tradicionais de culto a Lakshmi.
A abundância que sustenta a vida
Lakshmi nos convida a olhar novamente para aquilo que chamamos de prosperidade.
Riqueza material importa. Segurança, alimento, moradia, saúde e condições dignas de vida não devem ser desconsiderados.
Mas uma vida abundante também pode ser reconhecida no cuidado com aquilo que temos, na beleza que conseguimos perceber, na qualidade das relações e na possibilidade de compartilhar.
Talvez um dos ensinamentos mais fecundos associados a Lakshmi esteja justamente nesse equilíbrio:
reconhecer o valor do que recebemos, cuidar do que nos sustenta e permitir que a generosidade participe da maneira como vivemos.
Não apenas buscar a abundância.
Aprender a nos relacionar com ela.
E para você, o que significa viver com abundância?
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Referências para aprofundamento
- KEMPTON, Sally. Awakening Shakti: The Transformative Power of the Goddesses of Yoga. Capítulo 4 — Lakshmi, páginas 83–115.
- HARSHANANDA, Swami. Hindu Gods and Goddesses. 2. ed. Sri Ramakrishna Ashrama, 1982.
- Hindu American Foundation — Lakshmi: Goddess of Prosperity
- Hindu American Foundation — Ashta Lakshmi: The Eight Forms of Lakshmi
- National Museum, Índia — Lakshmi
- LACMA — Shri Lakshmi, Gaja Lakshmi