O dente-de-leão e a vida que ainda brinca

5 de outubro de 2026 · 5 min de leitura

Quando eu era criança, adorava assoprar dente-de-leão.

Não sei explicar exatamente o que havia naquela brincadeira. Eu só lembro que me divertia e que aquilo me trazia uma sensação boa, de leveza, quase como se alguma coisa dentro de mim também saísse voando com aquelas sementinhas.

E é curioso: até hoje, quando vejo um dente-de-leão, essa sensação parece entrar em mim outra vez. Rsrs.

Criança soprando um dente-de-leão em um campo verde
Algumas imagens parecem guardar sensações que o tempo não leva.

Quando a Designer de Aprendizagem entrou nos retiros

Na reta final do meu trabalho na Educação Básica, fiz uma pós-graduação na FIA. Foi ali que ampliei bastante meu repertório sobre Design Educacional, metodologias ativas, storytelling, experiência do usuário, acessibilidade, gestão de projetos, tecnologias para a aprendizagem e até inteligência artificial — além de muitas outras coisitas mais.rsrsrs

Quando resolvi criar o projeto Trip.MySelf, naturalmente comecei a trazer muitas dessas aprendizagens para o que estava construindo, relacionando-as à minha experiência de mais de 30 anos mediando aprendizagens e liderando projetos.

Por isso, quando voltei ao Brasil e comecei a criar os retiros Trip.MySelf, percebi que não conseguia simplesmente reunir algumas práticas e colocá-las dentro de uma programação.

Minha cabeça de educadora e de Designer de Aprendizagem imediatamente começou a pensar:

Qual é o percurso dessa experiência?

Onde ela começa?

Por onde conduz as pessoas?

E o que pode ajudar a dar sentido a essa travessia?

Foi aí que também me lembrei da importância da narrativa e dos símbolos.

Por que escolher um símbolo?

Na perspectiva de Jung, o símbolo funciona como uma espécie de mediador entre aquilo que conseguimos compreender racionalmente e conteúdos que ainda não estão completamente acessíveis à consciência.

Nas palavras dele:

O símbolo não é um pensamento racional a que é dado forma simbólica […] O símbolo expressa algo que é, por sua vez, a melhor representação possível de uma coisa relativamente desconhecida, a qual, no entanto, é viva e sabida como existente. JUNG, C. G. Tipos Psicológicos. Obras Completas, v. 6, §§ 814–817.

Por isso, enquanto construía a jornada do retiro A Vida que Ainda Brinca , comecei a me perguntar qual símbolo poderia acompanhar essa experiência.

Eu queria algo que conversasse com aquilo que estamos buscando durante o retiro: trazer para a vida adulta um pouco mais de espontaneidade, curiosidade, liberdade, leveza e capacidade de brincar.

Mas eu ainda não sabia qual seria esse símbolo.

Até que ele apareceu na minha rua

Um dia, voltando de uma caminhada, me deparei com um dente-de-leão. Bem ali. Na minha rua. Hahahahah.

Dente-de-leão encontrado durante uma caminhada, com paisagem rural ao fundo
Foi esse dente-de-leão, encontrado durante uma caminhada, que acabou entrando na história do retiro.

Foi esse dente-de-leão, encontrado durante uma caminhada, que acabou se tornando o símbolo do retiro A Vida que Ainda Brinca .

Olhei para ele e pensei quase imediatamente:

É esse o símbolo que eu estava procurando.

E fui pesquisar.

Quanto mais eu lia, mais a escolha parecia fazer sentido.

Significado do dente-de-leão: o que ele simboliza?

Quando comecei a pesquisar o significado do dente-de-leão, fui entendendo por que aquela planta havia me chamado tanto a atenção.

O dente-de-leão tem características muito próprias: cresce em diferentes condições, possui raízes profundas e suas sementes são levadas pelo vento, podendo alcançar novos lugares.

E foi justamente a partir dessas características que comecei a perceber os sentidos simbólicos que mais conversavam comigo.

A primeira imagem foi a do desprendimento. Quando sopramos o dente-de-leão, suas sementes se soltam e seguem com o vento. Não sabemos exatamente onde irão pousar. Para mim, há algo nessa imagem sobre soltar, confiar e permitir que o movimento aconteça.

Também enxerguei ali a resiliência. Uma planta capaz de nascer em lugares improváveis me fez pensar nessa capacidade que temos de continuar crescendo mesmo quando as condições não são exatamente aquelas que escolheríamos.

E existe, claro, algo que para mim é impossível separar do dente-de-leão: a infância.

Quem nunca pegou um dente-de-leão, fechou os olhos, fez um pedido e soprou?

Talvez por isso ele desperte tão facilmente essa memória de encantamento, curiosidade, brincadeira e possibilidade.

E há ainda a transformação. A flor amarela dá lugar àquela esfera branca e delicada que, pouco a pouco, se desfaz e se espalha.

Ela muda de forma. Solta. Viaja. Recomeça.

Foi nesse encontro entre aquilo que a planta é e aquilo que ela despertou em mim que o símbolo começou a fazer sentido para o retiro.

E então tudo fez sentido

Depois de pesquisar sobre esses significados, achei incrível a sincronicidade.

Aquele dente-de-leão apareceu justamente quando eu estava procurando um símbolo capaz de traduzir algo que eu vinha tentando colocar em palavras durante a criação do retiro.

E talvez ele consiga dizer de uma forma muito simples aquilo que A Vida que Ainda Brinca pretende investigar:

O que, dentro de nós, ainda sabe se encantar?

O que ainda tem curiosidade?

O que precisa se soltar?

O que deseja voltar a experimentar a vida com um pouco mais de leveza?

Talvez seja por isso que aquele dente-de-leão da minha infância tenha voltado agora.

Não apenas como lembrança.

Mas como símbolo de uma experiência que convida a olhar novamente para aquilo que, mesmo depois de tantos anos, ainda brinca dentro de nós.

E para você, que lembranças ou sensações um dente-de-leão desperta?

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Referências e caminhos para aprofundar

JUNG, C. G. Tipos Psicológicos . Obras Completas, v. 6, §§ 814–817 — para a concepção de símbolo.

SIGNIFICADOS. Flor dente-de-leão: significado e simbolismo . Referência complementar sobre os significados simbólicos associados ao dente-de-leão.

ROYAL BOTANIC GARDENS, KEW. Dandelion — Taraxacum officinale — características botânicas, sementes, raízes e dispersão.

EU NO HOLI

Marcela Dâmaris

Sou pedagoga e mestre em Educação pela UFLA, com trajetória em educação mediada por tecnologias digitais. Na Trip.MySelf, transformo estudo, prática e experiência em caminhos de aprofundamento.

Conheça minha trajetória → · Instagram →

6 comentários em “O dente-de-leão e a vida que ainda brinca”

    1. Marcela Dâmaris

      Regina, obrigada pela leitura e pela partilha. Fico feliz que essa história tenha te tocado.

  1. Anelize Junqueira Santos

    Amei a leitura. Também tive dente de leão na minha infância. Admiro muito a sua trajetória e também a facilidade com a tecnologia. Mas principalmente, a vontade e a necessidade de pensar no próximo. Não basta aprender, a experiência tem que abranger o próximo. Parabéns, Marcela. Sucesso em todos as suas aspirações. Beijos Anelize

    1. Marcela Dâmaris

      Anelize, obrigada pelo carinho e por uma leitura tão atenta. Fiquei muito tocada com essa ideia de que não basta aprender, que a experiência também precisa alcançar o outro. Acho que muito do que venho construindo nasce justamente desse desejo de transformar o que aprendo e vivo em algo que possa ser partilhado. E adorei saber que o dente-de-leão também fez parte da sua infância. Um beijo grande!

  2. ELAINA PAULA ALVES CALIXTO

    Adorei a simbologia, e o despertar de consciência.
    Nessa vida agitada precisamos dessas reflexões para não cair na correria e esquecer de encontrar contentamento e sentido que muitas vezes ficam somente na infância.

    1. Marcela Dâmaris

      Elaina, Obrigada pela partilha. Acho que é exatamente isso: na correria, muitas vezes nos afastamos de coisas simples que traziam sentido e contentamento. Talvez revisitar a infância também seja um jeito de lembrar do que ainda queremos preservar em nós.bjs

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